
Tem uma frase que eu ouço direto de advogado que não posta nada: "eu prefiro ser discreto." Discreto. Como se sumir do feed fosse elegância, e não medo disfarçado de princípio.
Vou ser direto: discrição era isso há vinte anos, quando o cliente descobria advogado por indicação de tio, cartão de visita e placa na porta. Hoje o primeiro lugar que qualquer pessoa olha antes de contratar alguém é o Google e, logo depois, o Instagram daquele nome. Se não tem nada lá, ou pior, se tem um perfil parado desde 2021 com foto de formatura, a mensagem que chega não é "profissional sério e discreto." É "sumiu, será que ainda atua?"
Reparo isso direto em conversa com colega de profissão. A pessoa é ótima tecnicamente, estuda, ganha causa difícil, trata cliente bem. E some da internet inteira, como se existir online fosse incompatível com ser sério. Só que ninguém mais confunde silêncio com seriedade. Confunde silêncio com sumiço.
E o pior é que "discrição" virou desculpa confortável pra não lidar com um desconforto real, que é não saber o que postar sem parecer que está se vendendo. Aí sim caberia discrição de verdade: não em não postar, mas em postar sem prometer resultado, sem se comparar com colega, sem citar caso concreto pra atrair gente. A OAB já deixou isso bem definido. O problema nunca foi aparecer. Foi aparecer errado.
Advogado que posta conteúdo informativo, que explica um instituto jurídico de um jeito que faz sentido pra quem não é da área, que mostra que entende do assunto, não está se expondo de forma indevida. Está fazendo exatamente o que a OAB permite e o mercado premia. Quem chama isso de falta de discrição só está tentando justificar a própria inércia.
Não estou dizendo pra postar todo dia, nem pra virar personagem de internet. Estou dizendo que existe uma diferença enorme entre escolher não fazer marketing agressivo, e simplesmente não existir digitalmente. A primeira é decisão. A segunda é ausência, e ausência não gera confiança, gera dúvida.
Enquanto você segue "discreto", alguém no seu mesmo bairro, com metade do seu conhecimento técnico, está postando toda semana e ficando com o cliente que era seu por direito de mérito. Discrição não perde caso. Invisibilidade perde.
E antes que alguém me chame de hipócrita: eu sei que expor a cara não é confortável pra todo mundo. Não precisa ser. Existe conteúdo que informa sem precisar aparecer de rosto na câmera. O que não existe é escritório que sobrevive só de indicação pra sempre, num mercado onde o cliente pesquisa antes de ligar.
