Um levantamento da OAB-SP em parceria com o ITS-Rio e a Trybe revelou que 77% dos advogados brasileiros já usam inteligência artificial no dia a dia da profissão, de acordo com reportagem do Migalhas. A pesquisa é a segunda edição do Relatório sobre o Impacto da IA no Direito, divulgada em março, e ouviu mais de 1.800 profissionais de seis seccionais estaduais.
O dado mais revelador não é a adoção em si, mas o contraste com outro número da mesma pesquisa: apenas 34% das organizações jurídicas têm orçamento dedicado para contratar ferramentas de IA ou capacitar a equipe. Ou seja, a maior parte da adoção acontece por conta própria do advogado, sem respaldo institucional do escritório.
Uma adoção sem estrutura por trás
Entre os respondentes, 91% perceberam melhoria na qualidade técnica do próprio trabalho depois de incorporar IA à rotina. O problema é que qualidade percebida não é sinônimo de uso seguro. Quando a adoção acontece de forma individual, sem política interna nem supervisão, o escritório fica exposto a exatamente o tipo de erro que gerou as sanções recentes por jurisprudência fabricada.
O movimento também aparece no mercado de trabalho. Estudos citados no mesmo relatório mostram que, depois da popularização de ferramentas como o ChatGPT, vagas para funções jurídicas rotineiras e automatizáveis caíram enquanto a demanda por perfis analíticos e estratégicos cresceu. O padrão se repete dentro da advocacia: tarefas de entrada, como pesquisa e revisão de minutas, são as mais expostas à automação.
O movimento não fica restrito aos escritórios privados. O CNJ registrou aumento de 171% em projetos de IA no Judiciário desde 2021, incluindo sistemas como o Victor, do STF, e o Sócrates, do STJ. Do lado das legaltechs, o Brasil saltou de cerca de 20 startups jurídicas em 2017 para mais de 600 ativas atualmente, segundo a AB2L.
O que isso muda pro seu escritório
O advogado que usa IA sozinho, sem o escritório inteiro sabendo como, é o mesmo perfil que aparece nos casos de multa por citação inventada. A pesquisa mostra que a tecnologia já está dentro do escritório, quer o sócio tenha decidido isso ou não.
A pergunta não é mais se vale a pena adotar inteligência artificial. É se o escritório vai continuar deixando a decisão nas mãos de cada advogado individualmente ou vai formalizar uma política mínima de uso, o mesmo tipo de cuidado que motivou a OAB a lançar a ferramenta gratuita para detectar alucinações de IA nesta semana.
